quinta-feira, 2 de abril de 2015

Edy, vestida para casar

Mylton (em pé), Edy (de grinalda), Iracema (de "chapéu"), Ivo e eu (deitada): palco improvisado no quintal


- Uma cobra, um rato?

A expressão de Mylton era de espanto, enquanto apontava para algo que só existia em nossa imaginação.

- O que teria ele visto de verdade, então?

Para nós, ele estava fazendo apenas uma pose fotográfica, porque tudo não passava de uma brincadeira. Edy e Mylton formavam o casal de noivos; Iracema e Ivo, os padrinhos. 

"Vestida para casar" era uma diversão inocente para os meus 6 anos. Naquela época, eu jamais imaginaria o que a vida estava me preparando... Tamanhas responsabilidades viriam. E assim, ficávamos horas nesse teatro.

Filha de dona Zizinha, nossa vizinha, Edy era uma presença constante em nosso lazer. 
Uma menina de sorriso generoso que contagiava a todos.Tínhamos a mesma idade e a mesma inocência. Mamãe e dona Zizinha, amigas já há bastante tempo, costumavam se visitar com frequência. Eram momentos prazerosos, de muita conversa entre as amigas, enquanto as crianças se divertiam nos quintais ou mesmo na rua de chão batido.

Bem à tardinha, era servido um delicioso chocolate quente, café e bolachinhas caseiras.
Para mim, o melhor momento da visita, quando nossos olhos se arregalavam diante da tentação daquelas guloseimas. Esperávamos ansiosos todos se sentarem, muito bem comportados à volta da mesa, repleta de coisas apetitosas.

Dona Zizinha, uma senhora de porte alto, de uma certa elegância ao falar, traços delicados que a cada sorriso mostrava seus alvos dentes. Uma negra bonita, mãe de Valter, Helena e da querida Edy. Tinha uma  presença calma, feito bondade, que se expressava na acolhida de todos nós.

Certa vez, ao chegar em sua casa, fui logo pedindo água para beber, mania que eu tinha de, toda vez, quando chegava na casa de alguém, fazer isso. Mamãe já me olhava com seus lindos olhos verdes de uma forma austera. Mas isso não bastava para me conter.

- "Sirva-se", disse sorrindo a dona da casa. "O filtro você já sabe onde se encontra".
Quando dei o primeiro gole d'água, senti um amargo ácido na boca que me fez perder o fôlego e vomitar em seguida. O que teria dentro daquele copo (!), me indaguei sozinha.

Rapidamente, olhei espantada para dona Zizinha que conversava animadamente com mamãe e, com certeza, não perceberia o que estaria acontecendo comigo naquele momento. Só Edy percebeu o meu constrangimento, tratando de lavar o copo imediatamente e, rindo, disse-me que era sal de fruta Eno, antiácido estomacal que seu pai tomava diariamente, devido a fortes dores no estômago.

Definitivamente, esse fato serviu-me de lição. Acabei com a tal mania de pedir água na casa das pessoas - porém, essa experiência desagradável me tornou intolerante a esse pozinho branco por toda a minha vida.

Dona Zizinha jamais soube desse lance, nem mamãe!


byyaradarin

quarta-feira, 25 de março de 2015

Esmeralda e Julieta: comadres além da cerca

Esmeralda e Julieta: amizade eterna

Longe vai o tempo... Na época, as divisas entre as casas eram feitas com cercas de madeira. A nossa era com a casa de Esmeralda. Uma vizinha querida e amada por mamãe.
Creio que tinham a mesma idade. De tanto mamãe pressionar, papai não teve outra alternativa, a não ser colocar um portão no quintal para facilitar o entra-e-sai das amigas, tal era a cumplicidade entre as duas. Eu ainda era muito pequena mas lembro-me bem de Esmeralda, nome que eu achava lindo.

Esmeralda vivia em nossa casa. Trazia seu único menino, um deficiente mental, que ela tratava sempre carinhosamente. Esmeralda não tinha a beleza de mamãe. Tinha um semblante sofrido, apagado, mas dos seus olhos também verdes como os de mamãe, emanavam uma luz que eu não sabia distinguir. Qual seria o efeito que me causava? Hoje, eu diria que seria a luz dos anjos emanando vibrações de amor. Essa mulher só podia ser um anjo.

Uma tarde de verão, vi mamãe em lágrimas, se despedindo de Esmeralda. Fiquei observando-as de longe. Mamãe não se conformava com a mudança repentina de Joaquim. O marido de Esmeralda havia decidido retornar à sua cidade natal - longe de Marília. Isso significava um adeus de verdade, nunca mais haveriam de se encontrar. 

Por todo o tempo que viveu, mamãe jamais esquecia sua grande amiga e ainda no seu viver de pouca lucidez, me perguntava: "Será que Esmeralda já morreu, filha?".

Nunca soubemos o motivo exato da sua repentina mudança para Jaboticabal. O que posso dizer é que ela nunca foi esquecida por mamãe. Tampouco, por mim!

byyaradarin