quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ivo Bernardo

Ter um irmão querido é ter para sempre uma infância lembrada com segurança em outro coração. Ivo foi um menino de uma teimosia ímpar. Gostava mesmo de brincar na rua com os amigos da sua idade, jogava bola, andava de carrinho de rolimã, e tantas outras brincadeiras de criança. Divertia-se com jogos de botão de mesa e Ping Pong. A alegria tomava conta de casa quando a turma chegava para jogar e alí ficavam horas nas brincadeiras. Meus irmãos sempre tiveram a liberdade de trazer os amigos em casa e por isso ela vivia repleta de gente. Lembro-me que alguns amigos ficavam até o anoitecer, ora brincando, ora estudando.



Mamãe contava que Ivo, meu terceiro irmão, dera muito trabalho a ela desde pequenino. Adorava duas coisas:- andar de botinas e sem roupa. Quando mamãe percebia sua nudez, saía buscando suas roupas jogadas em algum canto e o vestia. Teimoso que era, voltava a ficar nu novamente...Com certeza, levou bons pares de  chineladas de mamãe.

Ivo Bernardo aos 5 anos

Ivo era o mais alto dos irmãos e disso se envaidecia. Até hoje traz o charme da juventude, a clássica elegância que fizeram muitas jovens delirarem de paixão. Creio sim, que muitas sofreram de amor por ele. Mas Ivo sempre muito calado, amava do seu jeito.

Fascinado por basket, quando cursou o colegial, disputou com o time do Colégio Estadual de Marília, vários campeonatos do interior pela Alta Paulista e outros Estados. Ganharam inúmeras medalhas e toda a volta para casa exibia orgulhoso suas conquistas. Nessa época, também foi presidente do Grêmio Estudantil do mesmo Colégio, onde realizou vários eventos dentro do Centro Acadêmico. Defendeu também os interesses dos alunos menos favorecidos. 
Charme irresistível aos 18 anos- Marília.

Um fato acontecido com meu irmão ainda me traz  lembranças tristes. Certa tarde, enquanto brincava no Parque Infantil da Prefeitura, Ivo ao descer de um balanço sofreu uma forte batida na testa de um outro balanço que veio em sua direção; socorrido imediatamente e pré-restabelecido foi para casa sem que imaginássemos o que viria pela frente. 

Não demorou muito para que manifestasse em meu irmão os transtornos daquela batida. Ivo começou a ter sérios problemas de convulsão. Em Marília, ainda não havia médicos qualificados para tal problema; foi recomendado que o levasse para a Capital a fim de um tratamento especializado. A cada mês, mamãe partia para São Paulo levando meu irmão, nos deixando em casa aos cuidados de uma empregada e de papai, que chegava somente 'a noite. 

Mamãe ficava na casa dos meus avós Antonio e Percilia que moravam no bairro do Sumaré- e assim, aproveitava para rever toda família. Aquela ausência infinita de minha mãe, deixava-me aflita; - Como eu gostaria de estar junto a eles. Em cada beijo de despedida eu sentia que mamãe se entristecia em ter de nos deixar, porém não havia outra alternativa. Foram anos a fio de cuidados especiais a espera da cura do meu irmão.

Certa vez, num domingo ensolarado e frio, eu ví mamãe de um lado para o outro entre os quartos e cozinha. Parecia-me aflita e notei uma certa apreensão no rosto de papai. 
Eu não entendia o que se passava e minha angústia aumentava cada vez mais. Ivo não passava bem. Acometido por uma forte convulsão o clima gerou um caos. Não esqueço o olhar  intranquilo de papai quando gritou em direção 'a mamãe:- seu filho vai morrer! 
Fez-se um breve silêncio no interior da nossa casa, todos ficaram aflitos e mudos, quando repentinamente, meu irmão respirou, recobrando a lucidez.

Mamãe chorava de alegria e já podíamos ver em seu semblante o conforto e o alívio que ela nos transmitia. Após aquele domingo, Ivo nunca mais teve outras convulsões e finalmente, curou-se para sempre. Por várias vezes, lembrava desse triste fato tentando entender o significado da sua melhora repentina e cheguei a uma conclusão; seria um milagre recebido?

Ivo Bernardo, hoje, nos seus 71 anos- São Paulo

Sem que antes eu nunca soubesse  e para minha surpresa, alguns anos mais tarde mamãe pediu que a levasse 'a Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Confessou-me que tinha devoção por Ela desde aquele domingo de agonia. Havia suplicando-lhe cura para o meu irmão. Já não havia mais dúvidas para mim;-baixando a cabeça, murmurei baixinho:
-Sim, foi um milagre a cura do meu irmão, Graças a Deus!


Ivo, tendo 'a esquerda seus filhos Paulo e Cristiane. Atrás, Carolina sua primogênita

20 de Maio 
*Feliz aniversário, meu irmão! 
Em toda família é assim, a gente briga na infância mas vai crescendo e percebe que os irmãos são os verdadeiros amigos. Por isso hoje eu quero desejar todas as coisas boas do mundo para você e lembrar que poderá contar sempre comigo, nos bons e maus momentos, assim como eu pude sempre contar com você. Viva intensamente todos os dias, dance muito, ame muito, comemore sempre como todos os muitos outros dias que ainda estão por vir. 

yaradarin