Sentada: Eu com minha adorada boneca de estimação
Era uma figura! Valter, (Varte como a gente o chamava) bem mais velho que meu irmão Mylton, era o amigo mais assíduo de nossa casa em Marília, na Rua Santa Izabel. Segundo filho de dona Zizinha, nossa vizinha e amiga, era muito espirituoso e adorava aprontar brincadeiras de mal gosto com as pessoas. Papai sempre dizia: -Um dia você vai se dar mal, moleque! E ele, debochando, sorria dando de ombros, mostrando seus dentes brancos de fazer inveja.
Certa noite, já bem tarde, alguém bateu na porta de nossa casa. Papai ouvindo aquela forte batida por várias vezes, assustou-se aquela hora da noite e de dentro de casa gritou:- Quem está aí?
Ninguém respondia. Cismado e já preocupado pois continuavam a bater e a mexer na maçaneta da porta, papai levantou-se da cama, apanhou a sua espingarda de caçador que ele trazia por perto e foi correndo até a porta pensando que pudesse ser um ladrão. Rapidamente abriu-a e com a arma apontada para frente foi vasculhando para todo os lados. Não vendo nenhuma pessoa, novamente perguntou:- Quem está ai? Cachorros latiam e uivavam. Na escuro absoluto da noite sem que ninguém aparecesse, papai deu um tiro de espingarda para o alto.
Felizmente, papai não conseguiu alcançá-lo. Ele só queria mesmo assustá-lo. Estava cansado das brincadeiras de Varte, reclamou baixinho.
Depois que mudamos para o outro lado da cidade, nunca mais vimos o nosso amigo. Os anos se passaram e somente viemos a nos reencontrar em São Paulo, quando já estávamos todos adultos, Valter havia perdido o seu pai e a família resolveu se transferir para a Capital. Ainda bem, pois foi possível vê-los mais algumas vezes.
A cada encontro, relembrávamos com saudades esse fato que marcou nossas vidas para sempre.
E Valter dizia sorrindo lembrando de papai:- Nunca mais fiz zombaria daquele tipo com ninguém.
Finalmente, havia aprendido a lição.
-Valter, por onde andará você?
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