quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Sentimento de uma primavera

Primavera cereja

A primavera sempre exerceu um grande fascínio em minha vida. Ela é a minha planta preferida. Seu nome científico é bougainvillea glabra. Acredito que meu amor a essa planta esteja ligado a minha infância, ao contato carinhoso e diário de ver minha mãe cuidar de seu majestoso jardim colorido com primaveras de vários tons. Sempre teve a delicadeza no trato de plantas e não permitia jamais que alguém as tocassem. Poderíamos, sim, fotografá-las e apreciar tão somente a beleza de suas flores. E como eram belas! Cresciam e floresciam de tal forma que seus galhos pendiam e transpassavam pelo muro da casa do vizinho. Outras subiam em direção ao céu tomando a forma de uma grande árvore - um verdadeiro espetáculo da natureza!

Pá de jardim rendada

Nos dias em que minha mãe colocava seu avental florido e luvas de borracha para revolver a terra e adubá-la eu já percebia a sensação de afeto e alegria em seu olhar! Ela realmente se transformava! Assim como eu fico até hoje, ao topar com uma primavera em flor. Sinto um remexer dentro de mim sem fim, não sei explicar, mas também me transformo.

Primavera em lilás

Os anos se passaram, cresci, casei-me e levei comigo o hobby de cultivar primaveras. Há alguns anos, plantei uma pequenina muda ao lado do portão da entrada de uma antiga casa de praia. A primavera crescia, mas o tempo passava e ela não florescia. Suas folhas eram imensas e seus galhos enormes curvavam–se sobre o portão e pendiam pelo muro chegando quase ao chão! Eu sempre soube que a primavera logo floresce mesmo quando pequenina. Porém, algo acontecia com a minha, não florescia, por mais adubo que eu colocasse em sua raiz. A expectativa me deixava ansiosa, eu queria saber a cor de suas flores e isso era angustiante.


Uma noite, entre amigas, sentadas no jardim ao lado desta primavera, céu coalhado de estrelas e enquanto tomávamos a brisa deliciosa que vinha do mar, comentei  a minha decisão em cortar aquela primavera e disse a elas: -"Plantarei outra no lugar, afinal, primavera sem flores, não é primavera!". 
Na manhã seguinte, retornei à São Paulo. Após um longo período de ausência, voltei à minha casa na praia. Era uma tarde quente e ensolarada quando chegando próxima a casa não foi a minha surpresa ao enxergar ao longe minha primavera repleta de flores em vermelho granada se esparramando toda pelo muro, tal uma cascata. Tão bela quanto eu havia imaginado. Não resisti a tanta emoção, chorei!


- Coincidência, eu pensei, lembrando da conversa com minhas minhas amigas naquela noite de verão. Como não, agora eu sabia com toda certeza! Era uma emoção reprimida, contida na alma daquela primavera e, desperta ficou assim que ouviu a minha decisão em cortá-la. Plantas têm sentimentos, sim! 
Elas sentem e percebem quando são amadas e tratadas com carinho. E simplesmente agradecem assim, florindo!

Hoje, caminhando por uma alameda, deparei-me com uma imensa primavera de ramos floridos vermelhos caindo em profusão pelo muro, formando a tela de um quadro. Fiquei observando-a por alguns minutos com os olhos  marejados, relembrando saudosamente da primavera que um dia tanto amei. 
-Como ela estaria hoje, indaguei-me?


Estou longe mas ainda te amo, primavera!

Enquanto eu admirava aquela imensa beleza senti uma profunda gratidão por minha querida mãe, que deixou de herança para toda a família o exemplo de amorosidade às plantas. Amor, cuidados e ternuras com esses seres vivos e delicados que tanto embelezam - e curam - nossas vidas!


Julieta no seu jardim primaveril

Para você, minha doce mãe querida, amada Juju, eu lhe dedico essa história e agradeço por uma vida inteira de amor e dedicação a todas as plantas e o que semeaste em mim, especialmente as primaveras de todas as cores.

yaradarin

3 comentários:

  1. Isto explica muitas coisas! Inclusive porque as primaveras também me encantam!!! E meu pai era apaixonado por elas, ou talvez pelas mesmas lembranças de infância que você relatou. Era desejo de meu pai que suas cinzas fossem espalhadas em seu sítio, e assim o fizemos, mas eu fui além, e escolhi uma primavera para depositar um pouquinho dele junto a ela, e foi assim que plantei meu pai ao lado do portão. Era um sonho dele, ter uma primavera sobre o portão... De lá pra cá já se foi 1 ano, e ainda não a vimos florescer, mas tenho certeza que quando este dia chegar será tão emocionante quanto a tua experiência, a qual adorei saber. A vovó realmente deixou uma valiosa herança, e desta fortuna minha alma compartilha o amor pelas plantas.

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  2. Que ótimo saber disso, Laiz! O tio Luiz deve ter ficado muito feliz com Z!!!! Como ele amava aquele lugar! Quem lá visitar sempre estará o nome dele a honrar!!! bjs.

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    1. Sim, acredito que muito feliz! Caso você não saiba eu sou Laiz com Z, por causa deste tal "Z" que ele tanto fazia questão. Ele sempre me chamava Laiz... zê. E dizia pra eu nunca deixar escreverem meu nome errado, porque ele fez questão deste Z" no meu nome. E como eu amo meu nome e meu Z. rsrsrs

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