Toda família tem a sua árvore genealógica. Algumas conhecem dela apenas alguns galhos; outras conhecem várias ramificações; outras ainda, pelas circunstâncias da vida, somem no tempo.
Árvore genealógica na parede para honrar os ancestrais
A minha história começa em Itapuí, antiga Bica da Pedra, São Paulo, 7 de Julho de 1923,sábado. Neste dia nascia mamãe, uma linda menina de olhos verdes, cabelos pretos, batizada Juliete, que significa "fofinha", "pequena jovem, ou "filhinha de Júpiter". Filha de Antonio Marzola, italiano de Ceregnano, Província Di Rovigo, e Ercilia Chicoli, filha de italianos.
Meus avós moravam numa fazenda entre Jaú e Boracéia, 'as margens do Rio Tietê-SP. Meu avô era empregado e trabalhava na lavoura de café e algodão. Juliete crescia em liberdade correndo com seus pezinhos descalços por todo a casa e o bem-estar do lugar dava aos meus avós a tranquilidade que eles precisavam para criar os filhos. Ercilia já esperava o segundo filho e a vida transcorria normalmente.
Paróquia N.Sra. Aparecida- Boracéia
Certa manhã, uma tempestade de raios assolou a região da fazenda com fortes rajadas de vento. Meu avô que se encontrava na lavoura com os outros colonos, correram rapidamente para se abrigarem numa casinha que havia por perto. Mal entraram, ouviram um enorme estrondo ao longe. Um raio fulminante caía sobre minha avó que estava sentada à mesa do lado de fora da casa, escolhendo feijão para o almoço. Juliete, com dois anos de vida, acordou assustada com o barulho e começou a chorar sem jamais imaginar o que acontecia naquela trágica manhã de primavera. Só anos mais tarde ela entenderia que, dali em diante, estava órfã de mãe.
Estratto Per Riassunto Di Atto Di Nascita de Antonio Marzola
Sucumbia assim a trajetória da família Chicoli-Marzola. Vovô consternado, deixou a fazenda, indo morar na cidade de Jaú levando sua pequena Juliete. Deixou para trás, sonhos agora inacabados para sempre. Itapuí (nome que substituiu Bica da Pedra) ficou distante, somente as boas lembranças permaneceram gravadas em seu coração. E vovô enterrou para sempre o mistério familiar de Ercilia, no cemitério de Birigui.
Meu avô materno, Antonio Marzola: de Ceregnano (Itália) à Marília
Um ano após, Antonio encontrou Percilia e com ela se casou. Uma jovem de olhos azuis, pele clara, semblante singelo e bonito. Trazia consigo sua única filha de nome Maria- dois anos mais velha que minha mãe. Logo o casal constituiu sua família tendo mais quatros filhos; Waldemar, Alfredo, Waldomiro e Albertina. Nesta época, o nome de Juliete já havia sido abrasileirado pelos irmãos que passaram a chamá-la de Julieta ou simplesmente Júlia.
Com os filhos já crescidos, meu avô mais uma vez resolveu mudar-se - dessa vez, para Marília, para a minha sorte! A cidade prosperava com uma rapidez impressionante por possuir terras favoráveis à plantação de café. Foram em busca de melhores trabalhos. Nesta época, meu avô já havia mudado de carreira, passando a trabalhar na construção como mestre de obras, profissão que meus três tios seguiram. E a partida de Jaú para Marília não poderia ter sido mais triste para as irmãs adolescentes Maria e Julieta.
Inconsolável, Maria derramava-se em lágrimas ao ter de deixar seu grande amor; Julieta esmorecia-se, ao dizer adeus à sua única amiga. Em absoluto silêncio, a família seguiu a árdua viagem à nova terra a fim de construírem um futuro honesto, cheio de trabalho e esperanças.
Santuário Nossa Senhora de Fátima-Bairro Sumaré
Meu avô Antonio morreu cedo, aos 51 anos, deixando o coração de mamãe partido. Repentinamente, ela perdia o único contato que a sua lembrança e memória guardava da verdadeira mãe - assim como a sua origem enigmática.
Julieta, por anos a fio, incansavelmente procurou por algum parente de sua mãe; um irmão, um tio, um primo, alguém que pudesse tê-la conhecido. Foram inúmeras nossas buscas na região de Jaú, Birigui e outras regiões. Todas sem sucesso.
E a vida passou. Aos 86 anos, antes de mamãe falecer, ainda me dizia que estes anos não foram suficientes para serenar o seu coração, aquele sentimento de inquietude e tristeza que trazia dentro de seu ser. Era fervorosa ao acreditar que um dia tornar-se-ia claro e compreensível o misterioso silêncio que meu avô havia feito em torno dos familiares de sua mãe biológica.
Como esse mistério nunca ficou esclarecido, Julieta levou consigo a saudade eterna das mãos de sua mãe, com as quais, ela jamais sentiu-se acariciada!
yaradarin 06/05/2015
yaradarin 06/05/2015










