sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Onde estarão os descendentes de Ercilia Chicoli em JAÚ E REGIÃO??

Toda família tem a sua árvore genealógica. Algumas conhecem dela apenas alguns galhos; outras conhecem várias ramificações; outras ainda, pelas circunstâncias da vida, somem no tempo.

Árvore genealógica na parede para honrar os ancestrais
A minha história começa em Itapuí, antiga Bica da Pedra, São Paulo, 7 de Julho de 1923,sábado. Neste dia nascia mamãe, uma linda menina de olhos verdes, cabelos pretos, batizada Juliete, que significa "fofinha", "pequena jovem, ou "filhinha de Júpiter". Filha de Antonio Marzola, italiano de Ceregnano, Província Di Rovigo, e Ercilia Chicoli, filha de italianos.

Juliete aos 7 anos: depois ela se tornaria Julieta

Meus avós moravam numa fazenda entre Jaú e Boracéia, 'as margens do Rio Tietê-SP. Meu avô era empregado e trabalhava na lavoura de café e algodão. Juliete crescia em liberdade correndo com seus pezinhos descalços por todo a casa e o bem-estar do lugar dava aos meus avós a tranquilidade que eles precisavam para criar os filhos. Ercilia já esperava o segundo filho e a vida transcorria normalmente.


 
                                                          Paróquia N.Sra. Aparecida- Boracéia

Certa manhã, uma tempestade de raios assolou a região da fazenda com fortes rajadas de vento. Meu avô que se encontrava na lavoura com os outros colonos, correram rapidamente para se abrigarem numa casinha que havia por perto. Mal entraram, ouviram um enorme estrondo ao longe. Um raio fulminante caía sobre minha avó que estava sentada à mesa do lado de fora da casa, escolhendo feijão para o almoço. Juliete, com dois anos de vida, acordou assustada com o barulho e começou a chorar sem jamais imaginar o que acontecia naquela trágica manhã de primavera. Só anos mais tarde ela entenderia que, dali em diante, estava órfã de mãe.


Estratto Per Riassunto Di Atto Di Nascita de Antonio Marzola

Sucumbia assim a trajetória da família Chicoli-Marzola. Vovô consternado, deixou a fazenda, indo morar na cidade de Jaú levando sua pequena Juliete. Deixou para trás, sonhos agora inacabados para sempre. Itapuí (nome que substituiu Bica da Pedra) ficou distante, somente as boas lembranças permaneceram gravadas em seu coração. E vovô enterrou para sempre o mistério familiar de Ercilia, no cemitério de Birigui.

           Meu avô materno, Antonio Marzola: de Ceregnano (Itália) à Marília

Um ano após, Antonio encontrou Percilia e com ela se casou. Uma jovem de olhos azuis, pele clara, semblante singelo e bonito. Trazia consigo sua única filha de nome Maria- dois anos mais velha que minha mãe. Logo o casal constituiu sua família tendo mais quatros filhos; Waldemar, Alfredo, Waldomiro e Albertina. Nesta época, o nome de Juliete já havia sido abrasileirado pelos irmãos que passaram a chamá-la de Julieta ou simplesmente Júlia.

Com os filhos já crescidos, meu avô mais uma vez resolveu mudar-se - dessa vez, para Marília, para a minha sorte! A cidade prosperava com uma rapidez impressionante por possuir terras favoráveis à plantação de café. Foram em busca de melhores trabalhos. Nesta época, meu avô já havia mudado de carreira, passando a trabalhar na construção como mestre de obras, profissão que meus três tios seguiram. E a partida de Jaú para Marília não poderia ter sido mais triste para as irmãs adolescentes Maria e Julieta.  

Inconsolável, Maria derramava-se em lágrimas ao ter de deixar seu grande amor; Julieta esmorecia-se, ao dizer adeus à sua única amiga. Em absoluto silêncio, a família seguiu a árdua viagem à nova terra a fim de construírem um futuro honesto, cheio de trabalho e esperanças.
Porta-retrato: Julieta aos 24 anos

Marília, na Alta Paulista, crescia com novos empreendimentos imobiliários. Mas vovô ambicionava mais e, com sua família, mudou-se para a Capital, indo morar no bairro do Sumaré. Julieta, na época já casada com Bernardo, buscava um futuro próspero acreditando que seria melhor criar seus cinco filhos no interior. E continuou em Marília.

Vovô trabalhava intensamente fazendo grandes obras em Santo André e em São Paulo também. Construia mansões em bairros aristocratas muito além do Sumaré, mas seu orgulho maior foi ter participado da construção do Santuário Nossa Senhora de Fátima, no alto do Sumaré. Anos mais tarde, ao completarem 50 anos de casados, meus pais se casaram neste Santuário - exatamente como eu sonhava que seria desde a minha infância. Inclusive, foi com esse argumento ("Eu vejo vocês dois casando na igreja desde criança, mamãe!") que convenci o papai, ateu e comunista, a subir ao altar. O casamento foi realizado pelo querido (e já falecido) Frei Yves, pároco do Santuário. 
Santuário Nossa Senhora de Fátima-Bairro Sumaré

Meu avô Antonio morreu cedo, aos 51 anos, deixando o coração de mamãe partido. Repentinamente, ela perdia o único contato que a sua lembrança e memória guardava da verdadeira mãe - assim como a sua origem enigmática.

Julieta, por anos a fio, incansavelmente procurou por algum parente de sua mãe; um irmão, um tio, um primo, alguém que pudesse tê-la conhecido. Foram inúmeras nossas buscas na região de Jaú, Birigui e outras regiões. Todas sem sucesso.

E a vida passou. Aos 86 anos, antes de mamãe falecer, ainda me dizia que estes anos não foram suficientes para serenar o seu coração, aquele sentimento de inquietude e tristeza que trazia dentro de seu ser. Era fervorosa ao acreditar que um dia tornar-se-ia claro e compreensível o misterioso silêncio que meu avô havia feito em torno dos familiares de sua mãe biológica.

Como esse mistério nunca ficou esclarecido, Julieta levou consigo a saudade eterna das mãos de sua mãe, com as quais, ela jamais sentiu-se acariciada!

yaradarin 06/05/2015

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Sentimento de uma primavera

Primavera cereja

A primavera sempre exerceu um grande fascínio em minha vida. Ela é a minha planta preferida. Seu nome científico é bougainvillea glabra. Acredito que meu amor a essa planta esteja ligado a minha infância, ao contato carinhoso e diário de ver minha mãe cuidar de seu majestoso jardim colorido com primaveras de vários tons. Sempre teve a delicadeza no trato de plantas e não permitia jamais que alguém as tocassem. Poderíamos, sim, fotografá-las e apreciar tão somente a beleza de suas flores. E como eram belas! Cresciam e floresciam de tal forma que seus galhos pendiam e transpassavam pelo muro da casa do vizinho. Outras subiam em direção ao céu tomando a forma de uma grande árvore - um verdadeiro espetáculo da natureza!

Pá de jardim rendada

Nos dias em que minha mãe colocava seu avental florido e luvas de borracha para revolver a terra e adubá-la eu já percebia a sensação de afeto e alegria em seu olhar! Ela realmente se transformava! Assim como eu fico até hoje, ao topar com uma primavera em flor. Sinto um remexer dentro de mim sem fim, não sei explicar, mas também me transformo.

Primavera em lilás

Os anos se passaram, cresci, casei-me e levei comigo o hobby de cultivar primaveras. Há alguns anos, plantei uma pequenina muda ao lado do portão da entrada de uma antiga casa de praia. A primavera crescia, mas o tempo passava e ela não florescia. Suas folhas eram imensas e seus galhos enormes curvavam–se sobre o portão e pendiam pelo muro chegando quase ao chão! Eu sempre soube que a primavera logo floresce mesmo quando pequenina. Porém, algo acontecia com a minha, não florescia, por mais adubo que eu colocasse em sua raiz. A expectativa me deixava ansiosa, eu queria saber a cor de suas flores e isso era angustiante.


Uma noite, entre amigas, sentadas no jardim ao lado desta primavera, céu coalhado de estrelas e enquanto tomávamos a brisa deliciosa que vinha do mar, comentei  a minha decisão em cortar aquela primavera e disse a elas: -"Plantarei outra no lugar, afinal, primavera sem flores, não é primavera!". 
Na manhã seguinte, retornei à São Paulo. Após um longo período de ausência, voltei à minha casa na praia. Era uma tarde quente e ensolarada quando chegando próxima a casa não foi a minha surpresa ao enxergar ao longe minha primavera repleta de flores em vermelho granada se esparramando toda pelo muro, tal uma cascata. Tão bela quanto eu havia imaginado. Não resisti a tanta emoção, chorei!


- Coincidência, eu pensei, lembrando da conversa com minhas minhas amigas naquela noite de verão. Como não, agora eu sabia com toda certeza! Era uma emoção reprimida, contida na alma daquela primavera e, desperta ficou assim que ouviu a minha decisão em cortá-la. Plantas têm sentimentos, sim! 
Elas sentem e percebem quando são amadas e tratadas com carinho. E simplesmente agradecem assim, florindo!

Hoje, caminhando por uma alameda, deparei-me com uma imensa primavera de ramos floridos vermelhos caindo em profusão pelo muro, formando a tela de um quadro. Fiquei observando-a por alguns minutos com os olhos  marejados, relembrando saudosamente da primavera que um dia tanto amei. 
-Como ela estaria hoje, indaguei-me?


Estou longe mas ainda te amo, primavera!

Enquanto eu admirava aquela imensa beleza senti uma profunda gratidão por minha querida mãe, que deixou de herança para toda a família o exemplo de amorosidade às plantas. Amor, cuidados e ternuras com esses seres vivos e delicados que tanto embelezam - e curam - nossas vidas!


Julieta no seu jardim primaveril

Para você, minha doce mãe querida, amada Juju, eu lhe dedico essa história e agradeço por uma vida inteira de amor e dedicação a todas as plantas e o que semeaste em mim, especialmente as primaveras de todas as cores.

yaradarin