quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Seis Anos sem Mylton Severiano/ Myltainho

*10 de setembro de 1940 Marília-SP
    + 09 de maio de 2014 Florianópolis-SC


Mylton e seu "bolo prédio" Edifício Marília

Mylton ganhou uma grande festa quando completou 18 anos. Filho mais velho dos 5 irmãos, a festa seria mais do que merecida. Naquela época, a comemoração era sempre uma alegria e os vizinhos eram todos convidados. Nossa casa ficava repleta de pessoas amigas;

Começo a me lembrar do meu irmão Myltainho quando dos meus 5 anos de idade.Ele já era meu protetor, desde então. Cuidava de mim com carinho e estava sempre muito atento aos irmãos, quando esses vinham me agredir. Corria para ele pedindo água, pedia colo e proteção, socorro dos irmãos que me atormentavam, amparava-me nas briguinhas e nas pequenas discussões entre nós.


Aluno aplicado, seus momentos eram de estudos e muita leitura. 
Músico autodidata, acordeonista que além da música seu passatempo predileto era jogar xadrez no Clube de Xadrez de Marília. Aficcionado por este esporte, adorava os campeonatos, inclusive vindo a ganhar por diversas vezes.


Mylton como compositor e seu acordeon

E naquele 10 de setembro, a família estava unida e feliz!
Foi comemorado com grande pompa a festa de aniversário de Myltainho. Papai mandou fazer um lindo bolo. Bem, não era um  bolo qualquer não, mas sim, um bolo  que representava 'a época, o marco arquitetônico de Marília - o Edifício Marília- da Avenida Sampaio Vidal.

D.Zita, nossa vizinha e  boleira, assustou-se com a ideia de papai dizendo-se não saber fazer algo tão grandioso assim. Para ela um desafio. Mas papai tanto insistiu que finalmente ela aceitou o teste. 
Foram dias e noites, horas e horas na produção do bolo. Dúzias e dúzias de ovos, leite em grande quantidade, farinha sem fim, um entre sai na cozinha de D.Zita e, finalmente, o bolo ficou pronto. Inclusive virando a atração da festa, pela beleza da produção.

Nossa casa ficou repleta de amigos e convidados ilustres. Papai já andava pelos corredores da política e aproveitou para fazer um longo discurso e no final elogiando abertamente o aniversariante. 

Eu, tão pequenina, de longe apreciava a todos. A timidez não me deixava ser levada pela alegria das músicas de Luiz Gonzaga que papai delicadamente colocava na vitrola contagiando a todos com aquele  sorrisão  tão especial.

Chegada a hora do parabéns, todos se acomodaram na cozinha que ficou pequena demais para tantos convidados. Mylton trazia no rosto a felicidade de um jovem que mais tarde despertaria para uma longa caminhada jornalística de grandes conquistas, vitórias e méritos.



Mylton jovenzinho em sua formatura

As luzes se apagaram, acenderam-se as velas e o parabéns foi cantado. Olhei para minha mãe furtivamente e, lágrimas corriam de seus belos olhos verdes iluminando todo seu rosto. Fiquei observando-a por alguns minutos:

- o que estaria sentindo mamãe?  
Nunca lhe perguntei sobre a emoção que havia invadido seu coração naquele momento. Mas eu, o pressenti dentro da minha alma.

Chegado o momento de cortar o bolo, Mylton não sabia por onde começar e o riso foi geral. Jamais esquecerei a textura, a  maciez e a delícia de comer aquele pedaço de bolo dos deuses, que de tão grande, demoramos semanas para ser consumido.
Papai comentava com  imenso orgulho a proeza, cada vez que se referia ao bolo e a este dia marcado para sempre em nossas memórias.


Mylton e seu piano
Está na alma e na história de Myltainho, está na minha também e ele levou consigo para sempre este memorável dia que marcou a passagem dos seus 18 anos. E em todo 10 de setembro o amor fraternal não se cansará de (re)nascer, 

Querido irmão, estarás sempre vivo no meu coração por onde eu caminhar...até nos encontrarmos novamente. 

Saudade eterna!

Mylton em sua casa em Florianópolis-SC



yaradarin

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Éramos Cinco

Eu, sentada na bicicleta,
                                                                Mylton, Luiz Carlos e Iracema (em pé)


Éramos 5. 
Mylton, Iracema, Ivo Bernardo, Luiz (com z) Carlos e eu. Eis aqui meus irmãos, com todo o amor que nos uniu por tantos anos. Ivo, por ser o mais rebelde, estava sempre ausente e neste dia não foi diferente.

Não sei a autoria da foto, provavelmente meu pai, que adorava fotografar-nos e lembro-me bem, até hoje, quando papai comprou a sua belíssima câmera fotográfica Kodak, se exibindo todo.


E todos em volta daquela máquina, curiosos querendo saber suas funções - para nós, uma excepcional novidade. Porém, ninguém podia tocar com as mãozinhas. 


Era uma câmera importada, acomodada dentro de uma capa de couro marrom internamente aveludada, num vermelho carmim. Papai devia ter pago muito caro por aquele objeto tão precioso.


Meus olhinhos percorriam todos os lances e aqueles movimentos tão familiares que papai fazia ao lidar com ela. Os clicks de papai eram todos voltados para nós e suas pescarias domingueiras com mamãe. 

Seu sorriso, tão bonito, me despertava para a vida. Hoje eu compreendo a minha paixão pela fotografia: só pode ter nascido daquela alegria!



Assim,começa a minha história na família que eu escolhi para viver: Mazzola & Severiano da Silva!



byyaradarin

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Onde estarão os descendentes de Ercilia Chicoli em JAÚ E REGIÃO??

Toda família tem a sua árvore genealógica. Algumas conhecem dela apenas alguns galhos; outras conhecem várias ramificações; outras ainda, pelas circunstâncias da vida, somem no tempo.

Árvore genealógica na parede para honrar os ancestrais
A minha história começa em Itapuí, antiga Bica da Pedra, São Paulo, 7 de Julho de 1923,sábado. Neste dia nascia mamãe, uma linda menina de olhos verdes, cabelos pretos, batizada Juliete, que significa "fofinha", "pequena jovem, ou "filhinha de Júpiter". Filha de Antonio Marzola, italiano de Ceregnano, Província Di Rovigo, e Ercilia Chicoli, filha de italianos.

Juliete aos 7 anos: depois ela se tornaria Julieta

Meus avós moravam numa fazenda entre Jaú e Boracéia, 'as margens do Rio Tietê-SP. Meu avô era empregado e trabalhava na lavoura de café e algodão. Juliete crescia em liberdade correndo com seus pezinhos descalços por todo a casa e o bem-estar do lugar dava aos meus avós a tranquilidade que eles precisavam para criar os filhos. Ercilia já esperava o segundo filho e a vida transcorria normalmente.


 
                                                          Paróquia N.Sra. Aparecida- Boracéia

Certa manhã, uma tempestade de raios assolou a região da fazenda com fortes rajadas de vento. Meu avô que se encontrava na lavoura com os outros colonos, correram rapidamente para se abrigarem numa casinha que havia por perto. Mal entraram, ouviram um enorme estrondo ao longe. Um raio fulminante caía sobre minha avó que estava sentada à mesa do lado de fora da casa, escolhendo feijão para o almoço. Juliete, com dois anos de vida, acordou assustada com o barulho e começou a chorar sem jamais imaginar o que acontecia naquela trágica manhã de primavera. Só anos mais tarde ela entenderia que, dali em diante, estava órfã de mãe.


Estratto Per Riassunto Di Atto Di Nascita de Antonio Marzola

Sucumbia assim a trajetória da família Chicoli-Marzola. Vovô consternado, deixou a fazenda, indo morar na cidade de Jaú levando sua pequena Juliete. Deixou para trás, sonhos agora inacabados para sempre. Itapuí (nome que substituiu Bica da Pedra) ficou distante, somente as boas lembranças permaneceram gravadas em seu coração. E vovô enterrou para sempre o mistério familiar de Ercilia, no cemitério de Birigui.

           Meu avô materno, Antonio Marzola: de Ceregnano (Itália) à Marília

Um ano após, Antonio encontrou Percilia e com ela se casou. Uma jovem de olhos azuis, pele clara, semblante singelo e bonito. Trazia consigo sua única filha de nome Maria- dois anos mais velha que minha mãe. Logo o casal constituiu sua família tendo mais quatros filhos; Waldemar, Alfredo, Waldomiro e Albertina. Nesta época, o nome de Juliete já havia sido abrasileirado pelos irmãos que passaram a chamá-la de Julieta ou simplesmente Júlia.

Com os filhos já crescidos, meu avô mais uma vez resolveu mudar-se - dessa vez, para Marília, para a minha sorte! A cidade prosperava com uma rapidez impressionante por possuir terras favoráveis à plantação de café. Foram em busca de melhores trabalhos. Nesta época, meu avô já havia mudado de carreira, passando a trabalhar na construção como mestre de obras, profissão que meus três tios seguiram. E a partida de Jaú para Marília não poderia ter sido mais triste para as irmãs adolescentes Maria e Julieta.  

Inconsolável, Maria derramava-se em lágrimas ao ter de deixar seu grande amor; Julieta esmorecia-se, ao dizer adeus à sua única amiga. Em absoluto silêncio, a família seguiu a árdua viagem à nova terra a fim de construírem um futuro honesto, cheio de trabalho e esperanças.
Porta-retrato: Julieta aos 24 anos

Marília, na Alta Paulista, crescia com novos empreendimentos imobiliários. Mas vovô ambicionava mais e, com sua família, mudou-se para a Capital, indo morar no bairro do Sumaré. Julieta, na época já casada com Bernardo, buscava um futuro próspero acreditando que seria melhor criar seus cinco filhos no interior. E continuou em Marília.

Vovô trabalhava intensamente fazendo grandes obras em Santo André e em São Paulo também. Construia mansões em bairros aristocratas muito além do Sumaré, mas seu orgulho maior foi ter participado da construção do Santuário Nossa Senhora de Fátima, no alto do Sumaré. Anos mais tarde, ao completarem 50 anos de casados, meus pais se casaram neste Santuário - exatamente como eu sonhava que seria desde a minha infância. Inclusive, foi com esse argumento ("Eu vejo vocês dois casando na igreja desde criança, mamãe!") que convenci o papai, ateu e comunista, a subir ao altar. O casamento foi realizado pelo querido (e já falecido) Frei Yves, pároco do Santuário. 
Santuário Nossa Senhora de Fátima-Bairro Sumaré

Meu avô Antonio morreu cedo, aos 51 anos, deixando o coração de mamãe partido. Repentinamente, ela perdia o único contato que a sua lembrança e memória guardava da verdadeira mãe - assim como a sua origem enigmática.

Julieta, por anos a fio, incansavelmente procurou por algum parente de sua mãe; um irmão, um tio, um primo, alguém que pudesse tê-la conhecido. Foram inúmeras nossas buscas na região de Jaú, Birigui e outras regiões. Todas sem sucesso.

E a vida passou. Aos 86 anos, antes de mamãe falecer, ainda me dizia que estes anos não foram suficientes para serenar o seu coração, aquele sentimento de inquietude e tristeza que trazia dentro de seu ser. Era fervorosa ao acreditar que um dia tornar-se-ia claro e compreensível o misterioso silêncio que meu avô havia feito em torno dos familiares de sua mãe biológica.

Como esse mistério nunca ficou esclarecido, Julieta levou consigo a saudade eterna das mãos de sua mãe, com as quais, ela jamais sentiu-se acariciada!

yaradarin 06/05/2015

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Sentimento de uma primavera

Primavera cereja

A primavera sempre exerceu um grande fascínio em minha vida. Ela é a minha planta preferida. Seu nome científico é bougainvillea glabra. Acredito que meu amor a essa planta esteja ligado a minha infância, ao contato carinhoso e diário de ver minha mãe cuidar de seu majestoso jardim colorido com primaveras de vários tons. Sempre teve a delicadeza no trato de plantas e não permitia jamais que alguém as tocassem. Poderíamos, sim, fotografá-las e apreciar tão somente a beleza de suas flores. E como eram belas! Cresciam e floresciam de tal forma que seus galhos pendiam e transpassavam pelo muro da casa do vizinho. Outras subiam em direção ao céu tomando a forma de uma grande árvore - um verdadeiro espetáculo da natureza!

Pá de jardim rendada

Nos dias em que minha mãe colocava seu avental florido e luvas de borracha para revolver a terra e adubá-la eu já percebia a sensação de afeto e alegria em seu olhar! Ela realmente se transformava! Assim como eu fico até hoje, ao topar com uma primavera em flor. Sinto um remexer dentro de mim sem fim, não sei explicar, mas também me transformo.

Primavera em lilás

Os anos se passaram, cresci, casei-me e levei comigo o hobby de cultivar primaveras. Há alguns anos, plantei uma pequenina muda ao lado do portão da entrada de uma antiga casa de praia. A primavera crescia, mas o tempo passava e ela não florescia. Suas folhas eram imensas e seus galhos enormes curvavam–se sobre o portão e pendiam pelo muro chegando quase ao chão! Eu sempre soube que a primavera logo floresce mesmo quando pequenina. Porém, algo acontecia com a minha, não florescia, por mais adubo que eu colocasse em sua raiz. A expectativa me deixava ansiosa, eu queria saber a cor de suas flores e isso era angustiante.


Uma noite, entre amigas, sentadas no jardim ao lado desta primavera, céu coalhado de estrelas e enquanto tomávamos a brisa deliciosa que vinha do mar, comentei  a minha decisão em cortar aquela primavera e disse a elas: -"Plantarei outra no lugar, afinal, primavera sem flores, não é primavera!". 
Na manhã seguinte, retornei à São Paulo. Após um longo período de ausência, voltei à minha casa na praia. Era uma tarde quente e ensolarada quando chegando próxima a casa não foi a minha surpresa ao enxergar ao longe minha primavera repleta de flores em vermelho granada se esparramando toda pelo muro, tal uma cascata. Tão bela quanto eu havia imaginado. Não resisti a tanta emoção, chorei!


- Coincidência, eu pensei, lembrando da conversa com minhas minhas amigas naquela noite de verão. Como não, agora eu sabia com toda certeza! Era uma emoção reprimida, contida na alma daquela primavera e, desperta ficou assim que ouviu a minha decisão em cortá-la. Plantas têm sentimentos, sim! 
Elas sentem e percebem quando são amadas e tratadas com carinho. E simplesmente agradecem assim, florindo!

Hoje, caminhando por uma alameda, deparei-me com uma imensa primavera de ramos floridos vermelhos caindo em profusão pelo muro, formando a tela de um quadro. Fiquei observando-a por alguns minutos com os olhos  marejados, relembrando saudosamente da primavera que um dia tanto amei. 
-Como ela estaria hoje, indaguei-me?


Estou longe mas ainda te amo, primavera!

Enquanto eu admirava aquela imensa beleza senti uma profunda gratidão por minha querida mãe, que deixou de herança para toda a família o exemplo de amorosidade às plantas. Amor, cuidados e ternuras com esses seres vivos e delicados que tanto embelezam - e curam - nossas vidas!


Julieta no seu jardim primaveril

Para você, minha doce mãe querida, amada Juju, eu lhe dedico essa história e agradeço por uma vida inteira de amor e dedicação a todas as plantas e o que semeaste em mim, especialmente as primaveras de todas as cores.

yaradarin

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Desse Cabra Me Orgulho [ e muito ]



Com esta gratificante premiação "Menção Honrosa" na categoria Conto: Desse Cabra Eu Me Orgulho, honro a memória de meu querido pai!  Só tenho a agradecer a Editora Varal do Brasil em nome de Jacqueline Bulos Aisenman, por esta oportunidade.








Ele veio lá do interior das Alagoas. Cabra macho, sim senhor! E era mesmo. Andava sempre com uma peixeira na cintura. “Se mexer comigo leva!", dizia. Felizmente, nunca chegou a precisar dessa violência, mas acho que matou muita cobra! Adorava pescar e andar pelos matos!

Tinha seu chapéu de couro, sim, sempre pendurado atrás da porta da sala, com aquele orgulho de todo bom nordestino. Bernardo saiu da sua cidade natal, Viçosa, para “tentar a sorte” no interior de São Paulo, montado numa carroceria de caminhão, depois de viagem de navio até Santos. Foram longos e sofridos dias até São Paulo e, depois, Marília.

As notícias à época diziam que a cidade de Marília prosperava em terras ricas de café e algodão. E foi nesta cidade que Bernardo se instalou a convite do  irmão Odilon que, impressionado com o progresso, mandou chamá-lo. 

Tinha como ofício sapateiro, não sabia fazer outra coisa. E assim começou sua vida por lá. Seu primeiro e único emprego foi numa sapataria. Seu patrão, um homem bom e amável que o acolheu, deu-lhe emprego, alimentação e moradia - que ficava nos fundos da própria sapataria, até que Bernardo conseguisse arrumar um lugar e levar sua vida sozinho.
                                        Bernardo, "Vereador do Povo", em plena forma política 

O tempo foi generoso com Bernardo, que prosperava a cada dia em seu trabalho. Passado algum tempo, ele conheceu uma mimosa menina de apenas 15 anos, Julieta, filha de italianos. Paixão fulminante. Não demorou para se casarem.

Logo vieram os filhos, no total cinco. Bernardo, já instalado em seu próprio negócio, como fabricante de sapatos, vendia para toda a Alta Paulista. Comunicava-se bem e vivia pronto para ajudar qualquer necessitado que encontrava pelo caminho. Daí para entrar na política foi um pulo.


Candidatou-se e ganhou seu primeiro mandato como vereador. Era eloquente e arrojado na defesa dos mais necessitados. Essa era a sua luta, a sua vida e a ela se dedicou de corpo e alma. Fez vários projetos beneficiando grande parte da população mariliense. Um salto para conquistar seu segundo mandato.

Assim como cativou a amizade e o prestígio de muitos, também ganhou inimigos. Mas nada disso impediu que Bernardo ganhasse, nos idos de 1960, o título de “melhor vereador do Estado de São Paulo”, em iniciativa  do jornal Correio Paulistano. O prêmio foi recebido com honras e aplausos das mãos do presidente da Câmara e demais vereadores, mas Bernardo fez questão de dividi-lo com a população, que o chamava de “Vereador do Povo”.

Sentindo sua ascendência e a necessidade de mais dedicação ao trabalho, candidatou-se a prefeito de Marília. Mas o tempo já não mais favorecia seus ideais e Bernardo foi cassado pela ditadura em março de 1964. Adeus, almejado cargo de prefeito. "O primeiro homem cassado pela ditadura no Brasil", ele fazia questão de dizer.

Preso, ficou incomunicável por vários meses no Presídio do Hipódromo, em São Paulo. Para não morrer de frio ou pneumonia, no cárcere dormia de costas para os amigos. Lá dentro, arrumou "costas quentes" e, do carcereiro, ficou amigo. O algoz emprestava as chaves da cela para Bernardo e seus companheiros irem ao banheiro, tomar sol, café... Onde mais veremos um preso cuidando das celas e cadeados? Assim era Bernardo. E, se dessa maneira terminava sua carreira política, seus ideais não morreriam jamais. Muito menos o sonho de ver a democracia reinstalada no país - e por ela continuar lutando.

Abalado pelo constrangimento que o impossibilitou de reeleger-se, resolveu mudar com a família para a capital paulista, onde iniciou outra atividade até aposentar-se. Voltou ao interior, instalando-se em Ourinhos com sua Julieta - onde veio a falecer aos 81 anos de idade. Morreu feliz vendo a democracia instalada no país. Ele sabia: sua luta não havia sido inglória!


Bernardo será sempre lembrado pelo seu idealismo democrático, sua garra e luta férrea para conseguir dar ao povo menos favorecido as mesmas condições sócio-econômicas do resto do país. Julieta, que amava Bernardo, que amava Julieta, com ela viveu 52 anos.

Seu corpo foi sepultado em Marília. A cidade escolhida por ele também o acolheu como filho, dando-lhe honras e alegrias. Lá, Bernardo hoje é agraciado com uma imensa e arborizada praça de nome "Praça Bernardo Severiano da Silva".

Ah, já ia esquecendo: ainda moço, Bernardo aposentou a peixeira e passou a resolver tudo com uma boa conversa. Dizia: “Marília me civilizou".

Se eu tenho orgulho desse homem cabra macho? Tenho e muito! Ele é meu eterno e inesquecível ídolo, ele é meu pai!

byyaradarin


* Esse texto de minha autoria foi publicado no livro Varal Antológico 4, da editora Varal do Brasil.

sábado, 1 de abril de 2017

Tio Miro e seu violão de 7 Cordas.


Rapaziada Do Brás e Lampião De Gás por Isaías & seusChorões com Inezita Barros
Isaías e seu bandolin ao centro, tendo ao lado esquerdo Tio Miro.


Que me perdoem todos meus queridos tios, mas tio Miro era o meu predileto. Ele despertava um fascínio em mim. Era o irmão mais moço de mamãe; um boa pinta, olhos verdes, cabelos lisos e pretos, assim como os dela. Sempre bem humorado, adorava contar piadas, imitando o próprio português. Afinado com seu amigo violão possuia uma voz que a todos encantava.

Eu jamais cansaria de ouví-lo cantar. Músicas que até hoje, quando as ouço, faz-me relembrar um tempo feliz de criança. E foi assim, vendo-o tocar que cresci admirando-o.

Enquanto moramos em Marília, tio Miro sempre nos visitava. Passava alguns dias em casa, para a nossa alegria. Programa cultural e musical não faltavam; ora um cinema, ora teatro, ora uma noite de seresta que meus pais promoviam em casa, onde vizinhos e amigos formavam uma roda e era uma cantoria geral, ao som da voz e do violão de Tio Miro. Alguns pediam para ele cantar, outros queriam somente vê-lo dedilhar seu violão. E o pessoal não arredava o pé antes da madruga chegar. Papai também tinha o prazer de levá-lo 'as suas andanças, que no auge da sua carreira política, exibia com orgulho o cunhado artista. 

Certa vez, fomos ao teatro de arena assistir uma peça famosa 'a época, chamada  "Dona Xepa". No roteiro a história do dia a dia de uma família carente, que vivia no subúrbio com as dificuldades de sobrevivência numa grande cidade. Meus olhos miravam tio Miro que assistia calado, quando num certo momento papai manifestou-se dizendo: -Olha aí Miro, vida tão parecida com a sua...e isso bastou para que tio Miro se levantasse e fosse embora do teatro direto para casa. Enquanto papai se desculpava por achar que tudo não passava de um simples comentário sem ofensa, mamãe furiosa e entristecida com papai, lamentava o ocorrido. E o final da peça ninguém assistiu.

Tio Miro aborrecido com o episódio, despediu-se de todos e partiu para a Capital na mesma noite, deixando-nos somente a saudade. Uma lânguida tristeza, sem compreender o que havia acontecido invadiu meu ser, e tio Miro nunca mais voltou a nossa casa.

Ele era assim, intempestivo. E foi por toda vida!

'A frente de sua época, autodidata, cresceu musicalmente, pois era imbatível no dedilhar do seu violão de 7 cordas; por algum tempo atuou no conjunto de Isaias & seus Chorões, apresentado-se em Tvs e em vários outros locais, ganhando assim a fama. Gravaram Lps, depois Cds. Foi uma época feliz, confessava! 
Mas sua participação no conjunto foi efêmera, infelizmente, por suas divergências no  gênero musical.

Passado alguns anos, nos reaproximamos. Foi quando realmente descobri o tanto que eu o amava, o quanto ele precisava de ajuda e o reencontro com mamãe, foi outra descoberta; -quão bem eles se gostavam. 
A alegria era contagiante quando chegávamos em Ourinhos, onde minha mãe residia. Com papai já falecido, sempre que lembrávamos do episódio daquela noite, ríamos muito! 
Felizmente, tudo foi perdoado e esquecido.

Voltar 'as suas origens em Jaú, Boracéia- sua cidade natal e navegar no Rio Tietê, foram momentos de emoção que jamais esquecerei. Foi um passeio inesquecível onde ele e mamãe relembrava a cada passo, seus dias de meninice na pequena cidade. Observava meu tio e pressentia o seu declínio na carreira musical. Essa observação doía-me no peito. Já não cantava mais tão bem; dedilhava o violão com uma certa dificuldade, enquanto bebia sua cerveja, até adormecer sobre o copo.
Nessa época, separado de sua esposa Janete e distante de sua única filha, vivia só. 


Iracema e Tio Miro em nossa casa de Marília

Era uma noite quente de verão, por caminhos tão conhecido, na Av. Pompéia, pertinho de sua casa quando após descer do ônibus, embriagado, foi atropelado. Meu tio não resistiu e veio a falecer. 
Foi um triste fim 'aquele que poderia ter sido como ninguém, um grande e famoso violonista de 7 cordas !

Jamais esquecerei o quanto você foi especial na minha vida. Que haja luz, paz e amor ao seu redor, onde quer que você se encontre, meu querido e predileto tio Miro!


Tio Miro com seu violão de 7 Cordas ao centro 
tendo 'a sua esquerda Isaías e seu bandolin

byyaradarin





terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Victoria, minha neta pra lá de especial

Victoria com 1 dia de vida

É, como dizem os ingleses; um ato de Deus.
É a força da família na continuação de uma linhagem e da nossa história. Repentinamente a recebo em meus braços aquela criaturinha caída do céu, filha do meu filho Rodrigo e Adriane.

Victoria com 6 meses 
Victoria, menina angelical e sonhadora. 

Victoria 9 meses

Era fria a manhã de 11 de Junho de 1993- 
Hospital Santa Joana, quando Victoria chegou,  pelas mãos do médico obstetra e amigo, Dr. Rubens Paulo Gonçalves, para tudo mudar em nossas vidas! Quando a ví pela primeira vez, chorando baixinho, cochichei ao seu ouvido:-Bem-vinda minha estrela, que surge nos trazendo luz!

Victoria no Colégio Globinho aos 4 anos

Gosto do seu jeito, menina determinada, ora indecisa, como uma genuína geminiana. 


Victoria 3 meses

Compartilhar com ela a alegria de ter sido avó muito cedo é desfrutar de um amor doce, imenso e profunda amizade, que espero ainda vivenciar por muitos anos.

 
Victoria aos 4 anos

Adoro acompanhar seus pensamentos, por vezes, tão distantes; mas quantas vezes voltei a ser criança ao seu lado! Victoria é talentosa, tem o dom da beleza em seu olhar e quando munida de um pincel vai dando pinceladas coloridas sobre os olhos, traços perfeitos  e o semblante muda como num passe de mágica.

Victoria aos 5 anos-Festa Junina Colégio Globinho

Minha garotinha,que a cada dia o tempo a embelezou ainda mais, hoje aniversaria. Não é um simples aniversário, é uma celebração grandiosa, afinal são 22 anos de vida!

Victoria em seus 6 aninhos

Linda, meiga, traz em seu coração generosidade e amor tão puro e simples. 'As vezes, chego ouvir a ternura de sua voz me dizendo:- Vóvis, I love youuuuu. Voz repleta de saudade que vem de muito longe, mas a sinto tão perto de mim que respondo mansamente;-love you too!

Victoria, 21anos

Amorzinho, meu inesquecível amor, meu coração não esquece seus carinhos, seu afeto, seu olhar de ternura quando me escutas. Por tudo que és, assim mora em meu coração e dele nunca sairá. Nunca se esqueça de regar a sementeira do amor, pois assim ampliarás o seus dias de alegria. Que o Criador ilumine os seus caminhos levando a tristeza sempre pra longe, bem longe de você. Enchendo seu coração com a divina fé e arrancando qualquer sentimento de orgulho, presunção ou egoísmo. Continue a ser essa pessoa maravilhosa que você é, pois a beleza interior é a que realmente conta diante de nosso Pai Celestial. E nunca se esqueça; seu coração estará aonde estiver a sua alegria de viver.



Parabéns minha menina querida, moça faceira, mulher guerreira, pela data de hoje tão importante, que marca a sua entrada no mundo.

Victoria em plena juventude aos 21 anos

É festa no olhar de todas as pessoas que te querem bem e que têm um abraço para te ofertar, um olhar carinhoso para te oferecer. Enfim, vivenciar esse amor de muitas vidas com você minha neta amada é viver também o amor ao meu filho amado! 

Feliz Aniversário! 

byyaradarin