quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Seis Anos sem Mylton Severiano/ Myltainho

*10 de setembro de 1940 Marília-SP
    + 09 de maio de 2014 Florianópolis-SC


Mylton e seu "bolo prédio" Edifício Marília

Mylton ganhou uma grande festa quando completou 18 anos. Filho mais velho dos 5 irmãos, a festa seria mais do que merecida. Naquela época, a comemoração era sempre uma alegria e os vizinhos eram todos convidados. Nossa casa ficava repleta de pessoas amigas;

Começo a me lembrar do meu irmão Myltainho quando dos meus 5 anos de idade.Ele já era meu protetor, desde então. Cuidava de mim com carinho e estava sempre muito atento aos irmãos, quando esses vinham me agredir. Corria para ele pedindo água, pedia colo e proteção, socorro dos irmãos que me atormentavam, amparava-me nas briguinhas e nas pequenas discussões entre nós.


Aluno aplicado, seus momentos eram de estudos e muita leitura. 
Músico autodidata, acordeonista que além da música seu passatempo predileto era jogar xadrez no Clube de Xadrez de Marília. Aficcionado por este esporte, adorava os campeonatos, inclusive vindo a ganhar por diversas vezes.


Mylton como compositor e seu acordeon

E naquele 10 de setembro, a família estava unida e feliz!
Foi comemorado com grande pompa a festa de aniversário de Myltainho. Papai mandou fazer um lindo bolo. Bem, não era um  bolo qualquer não, mas sim, um bolo  que representava 'a época, o marco arquitetônico de Marília - o Edifício Marília- da Avenida Sampaio Vidal.

D.Zita, nossa vizinha e  boleira, assustou-se com a ideia de papai dizendo-se não saber fazer algo tão grandioso assim. Para ela um desafio. Mas papai tanto insistiu que finalmente ela aceitou o teste. 
Foram dias e noites, horas e horas na produção do bolo. Dúzias e dúzias de ovos, leite em grande quantidade, farinha sem fim, um entre sai na cozinha de D.Zita e, finalmente, o bolo ficou pronto. Inclusive virando a atração da festa, pela beleza da produção.

Nossa casa ficou repleta de amigos e convidados ilustres. Papai já andava pelos corredores da política e aproveitou para fazer um longo discurso e no final elogiando abertamente o aniversariante. 

Eu, tão pequenina, de longe apreciava a todos. A timidez não me deixava ser levada pela alegria das músicas de Luiz Gonzaga que papai delicadamente colocava na vitrola contagiando a todos com aquele  sorrisão  tão especial.

Chegada a hora do parabéns, todos se acomodaram na cozinha que ficou pequena demais para tantos convidados. Mylton trazia no rosto a felicidade de um jovem que mais tarde despertaria para uma longa caminhada jornalística de grandes conquistas, vitórias e méritos.



Mylton jovenzinho em sua formatura

As luzes se apagaram, acenderam-se as velas e o parabéns foi cantado. Olhei para minha mãe furtivamente e, lágrimas corriam de seus belos olhos verdes iluminando todo seu rosto. Fiquei observando-a por alguns minutos:

- o que estaria sentindo mamãe?  
Nunca lhe perguntei sobre a emoção que havia invadido seu coração naquele momento. Mas eu, o pressenti dentro da minha alma.

Chegado o momento de cortar o bolo, Mylton não sabia por onde começar e o riso foi geral. Jamais esquecerei a textura, a  maciez e a delícia de comer aquele pedaço de bolo dos deuses, que de tão grande, demoramos semanas para ser consumido.
Papai comentava com  imenso orgulho a proeza, cada vez que se referia ao bolo e a este dia marcado para sempre em nossas memórias.


Mylton e seu piano
Está na alma e na história de Myltainho, está na minha também e ele levou consigo para sempre este memorável dia que marcou a passagem dos seus 18 anos. E em todo 10 de setembro o amor fraternal não se cansará de (re)nascer, 

Querido irmão, estarás sempre vivo no meu coração por onde eu caminhar...até nos encontrarmos novamente. 

Saudade eterna!

Mylton em sua casa em Florianópolis-SC



yaradarin