quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Desse Cabra Me Orgulho [ e muito ]



Com esta gratificante premiação "Menção Honrosa" na categoria Conto: Desse Cabra Eu Me Orgulho, honro a memória de meu querido pai!  Só tenho a agradecer a Editora Varal do Brasil em nome de Jacqueline Bulos Aisenman, por esta oportunidade.








Ele veio lá do interior das Alagoas. Cabra macho, sim senhor! E era mesmo. Andava sempre com uma peixeira na cintura. “Se mexer comigo leva!", dizia. Felizmente, nunca chegou a precisar dessa violência, mas acho que matou muita cobra! Adorava pescar e andar pelos matos!

Tinha seu chapéu de couro, sim, sempre pendurado atrás da porta da sala, com aquele orgulho de todo bom nordestino. Bernardo saiu da sua cidade natal, Viçosa, para “tentar a sorte” no interior de São Paulo, montado numa carroceria de caminhão, depois de viagem de navio até Santos. Foram longos e sofridos dias até São Paulo e, depois, Marília.

As notícias à época diziam que a cidade de Marília prosperava em terras ricas de café e algodão. E foi nesta cidade que Bernardo se instalou a convite do  irmão Odilon que, impressionado com o progresso, mandou chamá-lo. 

Tinha como ofício sapateiro, não sabia fazer outra coisa. E assim começou sua vida por lá. Seu primeiro e único emprego foi numa sapataria. Seu patrão, um homem bom e amável que o acolheu, deu-lhe emprego, alimentação e moradia - que ficava nos fundos da própria sapataria, até que Bernardo conseguisse arrumar um lugar e levar sua vida sozinho.
                                        Bernardo, "Vereador do Povo", em plena forma política 

O tempo foi generoso com Bernardo, que prosperava a cada dia em seu trabalho. Passado algum tempo, ele conheceu uma mimosa menina de apenas 15 anos, Julieta, filha de italianos. Paixão fulminante. Não demorou para se casarem.

Logo vieram os filhos, no total cinco. Bernardo, já instalado em seu próprio negócio, como fabricante de sapatos, vendia para toda a Alta Paulista. Comunicava-se bem e vivia pronto para ajudar qualquer necessitado que encontrava pelo caminho. Daí para entrar na política foi um pulo.


Candidatou-se e ganhou seu primeiro mandato como vereador. Era eloquente e arrojado na defesa dos mais necessitados. Essa era a sua luta, a sua vida e a ela se dedicou de corpo e alma. Fez vários projetos beneficiando grande parte da população mariliense. Um salto para conquistar seu segundo mandato.

Assim como cativou a amizade e o prestígio de muitos, também ganhou inimigos. Mas nada disso impediu que Bernardo ganhasse, nos idos de 1960, o título de “melhor vereador do Estado de São Paulo”, em iniciativa  do jornal Correio Paulistano. O prêmio foi recebido com honras e aplausos das mãos do presidente da Câmara e demais vereadores, mas Bernardo fez questão de dividi-lo com a população, que o chamava de “Vereador do Povo”.

Sentindo sua ascendência e a necessidade de mais dedicação ao trabalho, candidatou-se a prefeito de Marília. Mas o tempo já não mais favorecia seus ideais e Bernardo foi cassado pela ditadura em março de 1964. Adeus, almejado cargo de prefeito. "O primeiro homem cassado pela ditadura no Brasil", ele fazia questão de dizer.

Preso, ficou incomunicável por vários meses no Presídio do Hipódromo, em São Paulo. Para não morrer de frio ou pneumonia, no cárcere dormia de costas para os amigos. Lá dentro, arrumou "costas quentes" e, do carcereiro, ficou amigo. O algoz emprestava as chaves da cela para Bernardo e seus companheiros irem ao banheiro, tomar sol, café... Onde mais veremos um preso cuidando das celas e cadeados? Assim era Bernardo. E, se dessa maneira terminava sua carreira política, seus ideais não morreriam jamais. Muito menos o sonho de ver a democracia reinstalada no país - e por ela continuar lutando.

Abalado pelo constrangimento que o impossibilitou de reeleger-se, resolveu mudar com a família para a capital paulista, onde iniciou outra atividade até aposentar-se. Voltou ao interior, instalando-se em Ourinhos com sua Julieta - onde veio a falecer aos 81 anos de idade. Morreu feliz vendo a democracia instalada no país. Ele sabia: sua luta não havia sido inglória!


Bernardo será sempre lembrado pelo seu idealismo democrático, sua garra e luta férrea para conseguir dar ao povo menos favorecido as mesmas condições sócio-econômicas do resto do país. Julieta, que amava Bernardo, que amava Julieta, com ela viveu 52 anos.

Seu corpo foi sepultado em Marília. A cidade escolhida por ele também o acolheu como filho, dando-lhe honras e alegrias. Lá, Bernardo hoje é agraciado com uma imensa e arborizada praça de nome "Praça Bernardo Severiano da Silva".

Ah, já ia esquecendo: ainda moço, Bernardo aposentou a peixeira e passou a resolver tudo com uma boa conversa. Dizia: “Marília me civilizou".

Se eu tenho orgulho desse homem cabra macho? Tenho e muito! Ele é meu eterno e inesquecível ídolo, ele é meu pai!

byyaradarin


* Esse texto de minha autoria foi publicado no livro Varal Antológico 4, da editora Varal do Brasil.

sábado, 1 de abril de 2017

Tio Miro e seu violão de 7 Cordas.


Rapaziada Do Brás e Lampião De Gás por Isaías & seusChorões com Inezita Barros
Isaías e seu bandolin ao centro, tendo ao lado esquerdo Tio Miro.


Que me perdoem todos meus queridos tios, mas tio Miro era o meu predileto. Ele despertava um fascínio em mim. Era o irmão mais moço de mamãe; um boa pinta, olhos verdes, cabelos lisos e pretos, assim como os dela. Sempre bem humorado, adorava contar piadas, imitando o próprio português. Afinado com seu amigo violão possuia uma voz que a todos encantava.

Eu jamais cansaria de ouví-lo cantar. Músicas que até hoje, quando as ouço, faz-me relembrar um tempo feliz de criança. E foi assim, vendo-o tocar que cresci admirando-o.

Enquanto moramos em Marília, tio Miro sempre nos visitava. Passava alguns dias em casa, para a nossa alegria. Programa cultural e musical não faltavam; ora um cinema, ora teatro, ora uma noite de seresta que meus pais promoviam em casa, onde vizinhos e amigos formavam uma roda e era uma cantoria geral, ao som da voz e do violão de Tio Miro. Alguns pediam para ele cantar, outros queriam somente vê-lo dedilhar seu violão. E o pessoal não arredava o pé antes da madruga chegar. Papai também tinha o prazer de levá-lo 'as suas andanças, que no auge da sua carreira política, exibia com orgulho o cunhado artista. 

Certa vez, fomos ao teatro de arena assistir uma peça famosa 'a época, chamada  "Dona Xepa". No roteiro a história do dia a dia de uma família carente, que vivia no subúrbio com as dificuldades de sobrevivência numa grande cidade. Meus olhos miravam tio Miro que assistia calado, quando num certo momento papai manifestou-se dizendo: -Olha aí Miro, vida tão parecida com a sua...e isso bastou para que tio Miro se levantasse e fosse embora do teatro direto para casa. Enquanto papai se desculpava por achar que tudo não passava de um simples comentário sem ofensa, mamãe furiosa e entristecida com papai, lamentava o ocorrido. E o final da peça ninguém assistiu.

Tio Miro aborrecido com o episódio, despediu-se de todos e partiu para a Capital na mesma noite, deixando-nos somente a saudade. Uma lânguida tristeza, sem compreender o que havia acontecido invadiu meu ser, e tio Miro nunca mais voltou a nossa casa.

Ele era assim, intempestivo. E foi por toda vida!

'A frente de sua época, autodidata, cresceu musicalmente, pois era imbatível no dedilhar do seu violão de 7 cordas; por algum tempo atuou no conjunto de Isaias & seus Chorões, apresentado-se em Tvs e em vários outros locais, ganhando assim a fama. Gravaram Lps, depois Cds. Foi uma época feliz, confessava! 
Mas sua participação no conjunto foi efêmera, infelizmente, por suas divergências no  gênero musical.

Passado alguns anos, nos reaproximamos. Foi quando realmente descobri o tanto que eu o amava, o quanto ele precisava de ajuda e o reencontro com mamãe, foi outra descoberta; -quão bem eles se gostavam. 
A alegria era contagiante quando chegávamos em Ourinhos, onde minha mãe residia. Com papai já falecido, sempre que lembrávamos do episódio daquela noite, ríamos muito! 
Felizmente, tudo foi perdoado e esquecido.

Voltar 'as suas origens em Jaú, Boracéia- sua cidade natal e navegar no Rio Tietê, foram momentos de emoção que jamais esquecerei. Foi um passeio inesquecível onde ele e mamãe relembrava a cada passo, seus dias de meninice na pequena cidade. Observava meu tio e pressentia o seu declínio na carreira musical. Essa observação doía-me no peito. Já não cantava mais tão bem; dedilhava o violão com uma certa dificuldade, enquanto bebia sua cerveja, até adormecer sobre o copo.
Nessa época, separado de sua esposa Janete e distante de sua única filha, vivia só. 


Iracema e Tio Miro em nossa casa de Marília

Era uma noite quente de verão, por caminhos tão conhecido, na Av. Pompéia, pertinho de sua casa quando após descer do ônibus, embriagado, foi atropelado. Meu tio não resistiu e veio a falecer. 
Foi um triste fim 'aquele que poderia ter sido como ninguém, um grande e famoso violonista de 7 cordas !

Jamais esquecerei o quanto você foi especial na minha vida. Que haja luz, paz e amor ao seu redor, onde quer que você se encontre, meu querido e predileto tio Miro!


Tio Miro com seu violão de 7 Cordas ao centro 
tendo 'a sua esquerda Isaías e seu bandolin

byyaradarin





terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Victoria, minha neta pra lá de especial

Victoria com 1 dia de vida

É, como dizem os ingleses; um ato de Deus.
É a força da família na continuação de uma linhagem e da nossa história. Repentinamente a recebo em meus braços aquela criaturinha caída do céu, filha do meu filho Rodrigo e Adriane.

Victoria com 6 meses 
Victoria, menina angelical e sonhadora. 

Victoria 9 meses

Era fria a manhã de 11 de Junho de 1993- 
Hospital Santa Joana, quando Victoria chegou,  pelas mãos do médico obstetra e amigo, Dr. Rubens Paulo Gonçalves, para tudo mudar em nossas vidas! Quando a ví pela primeira vez, chorando baixinho, cochichei ao seu ouvido:-Bem-vinda minha estrela, que surge nos trazendo luz!

Victoria no Colégio Globinho aos 4 anos

Gosto do seu jeito, menina determinada, ora indecisa, como uma genuína geminiana. 


Victoria 3 meses

Compartilhar com ela a alegria de ter sido avó muito cedo é desfrutar de um amor doce, imenso e profunda amizade, que espero ainda vivenciar por muitos anos.

 
Victoria aos 4 anos

Adoro acompanhar seus pensamentos, por vezes, tão distantes; mas quantas vezes voltei a ser criança ao seu lado! Victoria é talentosa, tem o dom da beleza em seu olhar e quando munida de um pincel vai dando pinceladas coloridas sobre os olhos, traços perfeitos  e o semblante muda como num passe de mágica.

Victoria aos 5 anos-Festa Junina Colégio Globinho

Minha garotinha,que a cada dia o tempo a embelezou ainda mais, hoje aniversaria. Não é um simples aniversário, é uma celebração grandiosa, afinal são 22 anos de vida!

Victoria em seus 6 aninhos

Linda, meiga, traz em seu coração generosidade e amor tão puro e simples. 'As vezes, chego ouvir a ternura de sua voz me dizendo:- Vóvis, I love youuuuu. Voz repleta de saudade que vem de muito longe, mas a sinto tão perto de mim que respondo mansamente;-love you too!

Victoria, 21anos

Amorzinho, meu inesquecível amor, meu coração não esquece seus carinhos, seu afeto, seu olhar de ternura quando me escutas. Por tudo que és, assim mora em meu coração e dele nunca sairá. Nunca se esqueça de regar a sementeira do amor, pois assim ampliarás o seus dias de alegria. Que o Criador ilumine os seus caminhos levando a tristeza sempre pra longe, bem longe de você. Enchendo seu coração com a divina fé e arrancando qualquer sentimento de orgulho, presunção ou egoísmo. Continue a ser essa pessoa maravilhosa que você é, pois a beleza interior é a que realmente conta diante de nosso Pai Celestial. E nunca se esqueça; seu coração estará aonde estiver a sua alegria de viver.



Parabéns minha menina querida, moça faceira, mulher guerreira, pela data de hoje tão importante, que marca a sua entrada no mundo.

Victoria em plena juventude aos 21 anos

É festa no olhar de todas as pessoas que te querem bem e que têm um abraço para te ofertar, um olhar carinhoso para te oferecer. Enfim, vivenciar esse amor de muitas vidas com você minha neta amada é viver também o amor ao meu filho amado! 

Feliz Aniversário! 

byyaradarin